31 dezembro 2007

Um mundo sendo criado e renovado

“ Para o ‘homem novo’ tudo é novo. Mesmo o antigo é transfigurado no Espírito Santo e torna-se sempre novo. Não há nada a apegar-se, nada há a esperar naquilo que já é passado ­– pois não é nada. O homem novo é aquele que pode encontrar realidade naquilo que não pode ser visto pelos olhos da carne – onde ainda nada é – e onde se torna algo no momento em que o vê. E nada poderia ser (ao menos para si) se ele não o tivesse visto. O homem novo vive num mundo que está sempre sendo criado e renovado. Vive numa região de renovação e criação. Ele vive na Vida.”

A Search for Solitude — Journals, Volume 3
, de Thomas Merton
Editado por Lawrence S. Cunningham
(HarperSanFrancisco, San Francisco), 1997, p. 269
Reflexão da semana de 31-12-2007

Um pensamento para reflexão
: “Há em todas as coisas visíveis uma fecundidade invisível, uma luz embaçada, um humilde anonimato, uma inteireza secreta. Esta misteriosa Unidade e Integridade é Sabedoria, a Mãe de tudo, Natura naturans.
“Hagia Sophia” in The Collected Poems of Thomas Merton

24 dezembro 2007

Cristo começa onde eu termino

“ O Advento, para nós, significa aceitação desse início totalmente novo. Significa a disposição de ver a eternidade e o tempo se encontrarem, não só em Cristo, mas em nós, no Homem, em nossa vida, em nosso mundo, em nosso tempo. O início é, portanto, o fim. Temos de aceitar o fim antes de podermos começar. Ou, antes, para sermos mais fiéis à complexidade da vida, temos de aceitar juntos o fim no início.

O segredo do mistério do Advento é, portanto, a conscientização de que eu começo onde termino, porque Cristo começa onde eu termino. Em termos mais comuns, vivo para Cristo quando morro a mim mesmo. Começo a viver para Cristo quando chego ao ‘fim’ ou ao ‘limite’ do que me divide dos homens, meus semelhantes; quando estou disposto a avançar além desse limite, a atravessar a fronteira, a tornar-me um estranho, a penetrar no deserto que não é ‘meu eu’, onde não respiro nem ouço a barulheira habitual e confortadora de minha própria cidade, onde estou só, sem defesas, na solidão de Deus.

A vitória de Cristo não é, de modo algum, a vitória de minha cidade sobre a cidade ‘deles’. A exaltação de Cristo não é a derrota e a morte de outros, de maneira que ‘meu lado’ possa ser vingado, e que eu possa provar estar ‘certo’. Devo passar por cima, fazer a transição (pascha) do meu fim a meu início, da minha antiga vida que terminou e que agora é morte para a minha vida nova, que não existia antes e que, agora, existe em Cristo.”
“Advent: Hope or Delusion?” in Seasons of Celebration, de Thomas Merton
(Farrar, Straus and Giroux, New York), 1965. p. 96-97
No Brasil: “Advento: Esperança ou Ilusão?” in Tempo e Liturgia, (Editora Vozes, Petrópolis), 1968. p. 99-100
Reflexão da semana de 24-12-2007

Um pensamento para reflexão
: “Hoje, a eternidade penetra no tempo, e o tempo santificado é levado à eternidade. Hoje, Cristo, a Palavra Eterna do Pai, que estava no principio com o Pai, em quem foram feitas todas as coisas, no qual todas subsistem, penetra no mundo criado por Ele, para recuperar as almas esquecidas de sua identidade.”
Tempo e Liturgia, Thomas Merton

17 dezembro 2007

Mulher, a glória e a graça do homem

Em seu sucinto folheto De Institutione Virginis (Da Educação de uma Virgem), Ambrósio [Bispo de Milão, m. 397], conjuga misticismo e humanismo de um modo que merece um estudo muito mais detalhado do que podemos tentar aqui. Atinge-se a plena maturidade da vida cristã em uma união virginal com Cristo que, por sua vez, implica a perfeita integração de toda a pessoa humana. A união com Cristo implica Sua entrada em uma personalidade que tem perfeita unidade em seus três elementos tradicionais: corpo, alma e espírito - corpus, anima, spiritus.

Esse tratado de Santo Ambrosio é particularmente interessante por sua aberta defesa das mulheres de maneira geral. Baseando-se na narrativa da criação do Gênese e na doutrina de São Paulo sobre o mistério de Cristo tipificado na união de Adão e Eva, o humanismo místico de Ambrósio declara que o homem sem mulher é física e espiritualmente incompleto, e que a mulher é, em sentido muito profundo, a ‘glória’ do homem, sua complementação espiritual, sua ‘graça’, sem a qual ele não pode possuir ou recuperar plenamente o seu verdadeiro ser em Cristo…

[A] beleza do corpo da mulher é uma grande obra de Deus, destinada a ser sinal da muitíssimo maior beleza interior, da especial claridade e amabilidade de seu espírito. De fato, Santo Ambrósio declara que é bem evidente que as mulheres são mais generosas, mais virtuosas, mais abnegadas do que os homens…

Esta defesa, totalmente reparadora, da mulher nos dá alguma indicação da profundidade e realidade do humanismo patrístico. De fato, como pode haver verdadeiro ‘humanismo’ quando a metade da espécie humana é ignorada ou excluída? O humanismo pagão, reservado exclusivamente ao homem, por trás de um verniz de filosofia, só faz exaltar sua complacência e justificar seu egoísmo. Um humanismo só para homens nada mais é, como vimos, do que uma falsidade bárbara. A luz do verdadeiro humanismo é alimentada pelo Verbo Encarnado.

Mystics and Zen Masters, Thomas Merton
(Dell Publishing Company, New York), 1961, p. 118-119

Reflexão da semana de 17-12-2007

Um pensamento para reflexão: “Não ouvimos a voz doce, a voz suave, a voz feminina, a voz da Mãe: contudo, ela fala por toda parte e em tudo. A sabedoria clama no mercado – ‘se alguém for pequeno, deixe-o vir a mim’.”
Turning Toward the World, Journals Volume 3, Thomas Merton

03 dezembro 2007

Restaurando o direito dos oprimidos

“ Infelizmente, o conceito verdadeiramente cristão de amor às vezes tem sido desacreditado por quem o sentimentaliza ou formaliza de uma forma ou de outra. Uma disposição subjetiva sincera de amar a todos não dispensa ninguém de uma ação social enérgica e sacrificial destinada a restaurar os direitos violados dos oprimidos, gerar trabalho para os desempregados, de modo que o faminto possa comer e que todos tenham uma possibilidade de ganhar um salário decente. Infelizmente, no passado era fácil demais para o homem bem alimentado nutrir os sentimentos mais louváveis de amor ao próximo, ignorando, ao mesmo tempo, o fato de seu irmão estar lutando para resolver problemas trágicos e insolúveis.

Já não é mais adequado apenas dar esmolas, especialmente se for só um gesto que parece dispensar qualquer outra ação social mais eficaz. Isso nem sempre resulta de uma real falta de sinceridade: mas as ‘boas obras’ que atendiam às necessidades de pequenas comunidades medievais não servem mais na fantástica crise mundial que varre toda a humanidade hoje, quando a população mundial se conta em bilhões e duplica em quarenta, vinte e até quinze anos. Neste caso, as dimensões do amor cristão devem se expandir e se universalizar na mesma escala do problema humano a ser enfrentado. O gesto individual, embora louvável, não será mais suficiente.”

Love and Living, de Thomas Merton
Editado por Naomi Burton Stone e Patrick Hart, OCSO
(Farrar, Straus and Giroux, New York) 1979, p. 30-31
No Brasil: Amor e Vida, (Martins Fontes Editora, São Paulo), 2004. p. 146-147
Reflexão da semana de 03-12-2007

Um pensamento para reflexão
: “O problema chave do humanismo é o problema desse amor autêntico que une o ser humano ao ser humano, não apenas em um relacionamento simbiótico e semiconsciente, mas como uma pessoa a outra pessoa, na autêntica liberdade de uma entrega mútua.”
Amor e Vida, Thomas Merton

29 novembro 2007

Apologia a um descrente

“ Admitir que este é um mundo ao qual parece que Deus não fala não é uma renúncia à fé: é a simples aceitação de um fato religioso existencial. Não deve desconcertar ninguém que crê, com base na Bíblia e nos místicos, que os silêncios de Deus também são mensagens que têm sua própria importância. E essa importância não é necessariamente tranqüilizadora. Uma coisa que pode significar, por exemplo, é um julgamento da hipocrisia dos que confiam em si mesmos porque se consideram respeitáveis e “bem situados”. Pode implicar um julgamento de suas assertivas e insinuar que muito está sendo dito por Deus numa linguagem que ainda não aprendemos a decodificar. Não que novos dogmas estejam sendo revelados: talvez coisas que precisamos muito entender nos estejam sendo ditas de formas novas e desconcertantes. Talvez estejam diante dos nossos olhos sem que as vejamos. É em situações assim que a linguagem do profetismo fala sobre o ‘silêncio de Deus’.”

Faith and Violence, de Thomas Merton.
(University of Notre Dame Press, South Bend, IN), 1968, p. 211-212
Reflexão da semana de 26-11-2007

Um pensamento para reflexão: “A fé chega a nós pelos ouvidos, diz São Paulo. Mas o que ouvimos? Os gritos dos encantadores de serpentes? As banalidades apaziguadoras do operador religioso? Primeiro devemos ser capazes de ouvir as bases insondáveis do nosso próprio ser, pois quem sou eu para dizer que as reservas que você [o Descrente] tem quanto a um compromisso religioso não protegem, em você, essa forma de escuta?”
Faith and Violence, Thomas Merton

19 novembro 2007

Salmos que embriagam








Quando os salmos me surpreendem com sua música
E as antífonas tornam-se rum
O Espírito canta; o fundo de minh’alma cai.

E do centro de meu porão, Amor, mais alto que o trovão
Abre-se um céu de ar desnudo.

Novos olhos despertam.

Envio o nome do Amor ao mundo com asas
E canções crescem ao meu redor como uma selva.
Coros de todas as criaturas entoam as melodias
Que o Teu Espírito toca no Éden.

Um pensamento para reflexão: “Saia de si com tudo que se é, o que não é nada, e derrame esse nada em gratidão por Deus ser quem Ele é.”
Dancing in the Water of Life. Diários, Vol. 5, Thomas Merton


PSALM

When psalms surprise me with their music
And antiphons turn to rum
The Spirit sings; the bottom drops out of my soul.

And from the center of my cellar, Love, louder than thunder
Opens a heaven of naked air.

New eyes awaken.

I send Love's name into the world with wings
And songs grow up around me like a jungle.
Choirs of all creatures sing the tunes
Your Spirit played in Eden.

“Psalm” in The Collected Poems of Thomas Merton
(New Directions Publishing Corp., Nova York) 1977, p. 220-221
Reflexão da semana 19-11-2007

12 novembro 2007

Elegia para um Trapista


[Para os que apreciaram a reflexão de Merton sobre o Pe. Stephen, o monge das flores, de Gethsemani, que apareceu na semana passada, 5 de novembro, segue um poema escrito após o enterro do Pe. Stephen.]



Talvez no martirológio ainda hoje
Faltem as palavras para descrever-te
Confessor de exóticas rosas
Mártir de indizíveis jardins

A quem sempre lembraremos
Como um amável ser aflito

Generoso e instável penhasco
Cambaleando no claustro
Como um velho trem de carga
Rumo a incerta estação

Mestre do súbito presente jubiloso
Numa avalanche
De catálogos de flores
E de amor sem limites.

Às vezes um tanto perigoso nas curvas
Tentando infiltrar em vão
Alguns buquês enormes, perfeitos
Num altar lateral

Nas mangas de tua cogula

Na escuridão da madrugada
No dia do teu enterro
Um caminhão com seus faróis
Como um navio de guerra
Chegou até o portão
Por seu jardim silencioso e abandonado

O breve lampejo
Acende grutas, pirâmides e presenças
Uma a uma
O vermelho do portão se abriu
E se fechou rangendo sob as luzes
E houve nada

Como se Leviatã

Excitado pelo rastro de outro sangue
Tivesse passado por ti
Sem te ver escondido nas flores.




ELEGY FOR A TRAPPIST

Maybe the martyrology until today
Has found not fitting word to describe you
Confessor of exotic roses
Martyr of unbelievable gardens

Whom we will always remember
As a tender-hearted careworn
Generous unsteady cliff
Lurching in the cloister
Like a friendly freight train
To some uncertain station

Master of the sudden enthusiastic gift
In an avalanche
Of flower catalogues
And boundless love.

Sometimes a little dangerous at corners
Vainly trying to smuggle
Some enormous and perfect bouquet
To a side altar
In the sleeves of your cow

In the dark before dawn
On the day of your burial
A big truck with lights
Moved like a battle cruiser
Toward the gate
Past your abandoned and silent garden

The brief glare
Lit up the grottos, pyramids and presences
One by one
Then the gate swung red
And clattered shut in the giant lights
And everything was gone

As if Leviathan
Hot on the scent of some other blood
Had passed you by
And never saw you hiding in the flowers.

The Collected Poems of Thomas Merton
(New Directions, Inc., New York), 1977, p. 631- 632
Reflexão da semana de 12-11-2007

05 novembro 2007

Uma vida que une

[Transcrito de uma apresentação oral]

“ Havia um velho padre em Gethsemani – uma daquelas pessoas que existem em todas comunidades muito grandes – que era visto como uma espécie de sujeito engraçado. Na verdade, ele era um santo. Sua morte foi bela e, depois que morreu, todos perceberam o quanto o amavam e admiravam, embora ele tivesse feito, constantemente, tudo errado durante sua vida. Era absolutamente obcecado por jardinagem, mas por muito tempo teve um abade que insistia em que ele devia fazer qualquer coisa, menos jardinagem, por uma questão de princípio; pois fazer o que você gostava significava seguir a vontade própria. O Padre Stephen, contudo, não conseguia deixar de mexer no jardim. Era proibido, mas a gente o via plantando coisas sub-repticiamente. Por fim, quando o velho abade morreu e veio o novo, ficou tacitamente entendido que o Padre Stephen nunca faria nada além da jardinagem, e assim o incluíram na lista de tarefas como jardineiro, e ele só fazia jardinagem de manhã à noite. Nunca ia ao Ofício, nunca ia a nada, apenas cavava em seu jardim. Ele colocou toda a sua vida ali e todos meio que riam disso. Mas ele fazia coisas muito boas – por exemplo, quando os teus pais vinham te visitar, e você ouvia um farfalhar entre os arbustos como se um alce estivesse se aproximando, o Padre Stephen surgia apressado com um grande buquê de flores.

Na festa de São Francisco de três anos atrás, ele estava vindo do jardim próximo da hora do jantar, entrou em outro jardinzinho, se deitou no chão sob uma árvore, perto de uma estátua de Nossa Senhora, e alguém passou e pensou: ‘o que será que ele está fazendo agora?’ E o Padre Stephen olhou de volta, para cima, acenou e morreu. No dia seguinte, no seu funeral, os pássaros cantavam, o sol brilhava e foi como se toda a natureza estivesse ali com o Padre Stephen. Ele não teve de ser diferente dessa maneira: essa foi a maneira como aconteceu. Este foi um desenvolvimento frustrado, desviado para um canalzinho engraçado, mas o verdadeiro sentido de nossas vidas é desenvolver pessoas que realmente amem a Deus e irradiem amor, não no sentido de que sintam muito amor, mas de que simplesmente sejam pessoas cheias de amor que mantêm a chama do amor acesa no mundo. Para isto, têm de ser pessoas plenamente unificadas e plenamente elas mesmas – pessoas de verdade.”

Thomas Merton in Alaska, de Thomas Merton
(New Directions Publishing Corp., New York), 1988, p.148-149
Reflexão da semana de 05-11-2007

Um pensamento para reflexão
: “O propósito da vida monástica é criar uma atmosfera na qual as pessoas se sintam livres para expressar sua alegria de maneiras razoáveis. O que estamos realmente buscando é a integração e unificação finais do homem no amor.”
Thomas Merton in Alaska

29 outubro 2007

Imaturidade e narcisismo do amor

“ (…) Os psicólogos usam palavras bem ásperas para a imaturidade e o narcisismo do amor em nossa sociedade mercadológica, na qual ele é reduzido a uma necessidade puramente egoísta que exige satisfação imediata ou manipula os outros de maneira mais ou menos inteligente a fim de obter o que deseja. Mas a pura verdade é esta: o amor não é uma questão de se obter o que se deseja. Muito pelo contrário. A insistência em sempre ter o que se deseja, em sempre obter satisfação, em sempre ser saciado, torna o amor impossível. Para amar, você precisa sair do berço, onde tudo é ‘obter’, e crescer para a maturidade da doação, sem se preocupar em obter alguma coisa especial em troca. O amor não é uma transação, é um sacrifício. Não é marketing, é uma forma de culto.

Na realidade, o amor é uma força positiva, um poder espiritual transcendente. É, de fato, o poder criativo mais profundo na natureza humana. Enraizado nas riquezas biológicas de nossa herança, o amor floresce espiritualmente como liberdade e como resposta da criatura à vida num encontro perfeito com uma outra pessoa. É uma apreciação viva da vida como valor e como dom. Responde à fecundidade, à variedade e à total riqueza da própria experiência viva; ele ‘conhece’ o mistério interior da vida. Deleita-se com a vida como uma fortuna inesgotável. O amor aprecia essa fortuna de uma maneira impossível ao conhecimento. O amor tem a sua própria sabedoria, sua própria ciência, sua própria maneira de explorar as profundezas interiores da vida no mistério da pessoa amada. O amor sabe, compreende e satisfaz as exigências da vida, na medida em que responde com calor, abandono e entrega.”

Love and Living, de Thomas Merton
Editado por Naomi Burton Stone e Patrick Hart, OCSO
(Farrar, Straus and Giroux, New York) 1979, p. 30-31
No Brasil: Amor e Vida, (Martins Fontes Editora, São Paulo), 2004. p. 35-36
Reflexão da semana de 28-10-2007

Um pensamento para reflexão: “O amor é o nosso verdadeiro destino. Não encontramos o sentido da vida sozinhos ­— nós o encontramos com um outro. Não descobrimos o segredo de nossas vidas apenas pelo estudo e pelo cálculo em nossas meditações isoladas. O sentido de nossa vida é um segredo que nos tem de ser revelado no amor, por aquele que amamos.”
Amor e Vida, Thomas Merton

22 outubro 2007

Os sensatos e os perigosos

“ Um dos fatos mais perturbadores no julgamento de [Adolf] Eichmann é que um psiquiatra o examinou e o considerou perfeitamente são. Não duvido, de forma alguma, é precisamente por isso que acho o fato perturbador.

A sanidade de Eichmann é perturbadora. Associamos sanidade com senso de justiça, humanidade, prudência, capacidade de amar e entender as pessoas. Dependemos das pessoas sãs do mundo para preservá-lo da barbárie, da loucura, da destruição. E agora começamos a nos dar conta de que os sensatos é que são os mais perigosos.

São os sensatos, os bem adaptados que, sem receios e sem escrúpulos, apontam os projéteis e apertam os botões que iniciarão o grande festival de destruição que eles, os sadios, prepararam. O que nos dá tanta certeza de que, afinal, o perigo provem de um psicótico em condições de disparar o primeiro tiro numa guerra nuclear? Os psicóticos serão suspeitos. Os sadios os manterão afastados dos botões. Ninguém suspeita dos sadios, que terão sempre boas razões, lógicas e plausíveis, para disparar. Estarão obedecendo ordens sadias que terão vindo de forma sensata pela cadeia de comando. E, por causa de sua sanidade, jamais terão escrúpulos. Quando os mísseis forem disparados, não terá sido por engano.”

Raids on the Unspeakable, de Thomas Merton
(New Directions Publishing Co., New York), 1964, p. 45, 46-47
Reflexão da semana de 22-10-2007

Um pensamento para reflexão
: “Os que inventaram e desenvolveram as bombas atômicas, as bombas termonucleares, o mísseis, os que planejaram as estratégias da próxima guerra, os que avaliaram as possibilidades de usar agentes bacteriológicos e químicos: estes não são os loucos, são as pessoas sadias.”
Raids on the Unspeakable, Thomas Merton

15 outubro 2007

Todo mundo é mais ou menos sem fé

“ Minha tarefa peculiar em minha Igreja e em meu mundo tem sido a de um explorador solitário que, em vez de embarcar em todas as últimas ondas ao mesmo tempo, está destinado a procurar as profundezas existenciais da fé em seu silêncio, suas ambigüidades e naquelas certezas situadas abaixo do fundo da ansiedade. Nessas profundezas não há respostas fáceis, nenhuma solução pronta. É uma espécie de vida submarina em que a fé às vezes assume misteriosamente o aspecto da dúvida quando, na verdade, é preciso duvidar e rejeitar os substitutos convencionais e supersticiosos que tomaram o lugar da fé. Nesse plano, a divisão entre as pessoas com e sem fé deixa de ser tão cristalinamente clara. Não é que alguns estejam totalmente certos e outros, totalmente errados: todos têm de buscar com sincera perplexidade. Todo mundo é mais ou menos sem fé! Só quando este fato é plenamente vivenciado, aceito e vivido passa-se a ser capaz de ouvir a simples mensagem do Evangelho – ou de qualquer outro ensinamento religioso.

O problema religioso do século vinte não é compreensível se o enfocarmos apenas como um problema de pessoas sem fé e de ateus. Também é, e talvez em primeiro lugar, um problema de pessoas com fé. A fé que esfriou não foi apenas a fé que alguns perderam, mas também a fé que alguns mantiveram. Esta fé muitas vezes se tornou rígida, ou complexa, sentimental, tola ou impertinente. Perdeu-se em imaginações e irrealidades, dispersou-se em rotinas pontificais e de organização, ou evaporou em ativismo e falação.”

Faith and Violence, de Thomas Merton.
(University of Notre Dame Press, South Bend, IN), 1968, p. 213-214.

Reflexão da semana de 15-10-2007

Um pensamento para reflexão: “[Uma] fé que tem medo de outras pessoas não é fé alguma. Uma fé que tem como esteio a condenação de outros é, ela mesma, condenada pelo Evangelho.”
Faith and Violence, Thomas Merton

08 outubro 2007

Um discurso maravilhoso

“ Subi do mosteiro para cá [para o eremitério] ontem à noite chapinhando pelo milharal, rezei as Vésperas e coloquei aveia no fogareiro para o jantar. A aveia ferveu e derramou enquanto eu ouvia a chuva e tostava um pedaço de pão no fogo a lenha. A noite tornou-se muito escura. A chuva rodeou todo o chalé com seu enorme mito virginal - todo um mundo de sentido, segredo, silêncio, rumor. Pense nela: todo aquele discurso precipitando-se, vendendo nada, julgando ninguém, empapando a espessa camada de folhas mortas, encharcando as árvores, enchendo d’água as ravinas e recantos do bosque, lavando os lugares onde os homens desnudaram a encosta! Que coisa é sentar-se absolutamente só na floresta à noite, acariciado por esse discurso maravilhoso, ininteligível, perfeitamente inocente, o discurso mais reconfortante do mundo, a fala com que a chuva, sozinha, cobre o perfil das montanhas, e a fala dos arroios por toda parte, em todos os sulcos!

Ninguém a começou, ninguém a deterá. Esta chuva falará o tempo que quiser. Enquanto ela falar, vou ouvir.”

Raids on the Unspeakable, de Thomas Merton
(New Directions Publishing Co., New York), 1964, p. 9-10
Reflexão da semana de 08-10-2007

Um pensamento para reflexão: “Em seu nono memra* (sobre a pobreza) aos que moravam em solidão, Philoxenos diz que não há explicação nem justificativa para a vida solitária, pois ela é sem lei. Portanto, ser contemplativo é ser fora da lei. Como Cristo foi. Como [São] Paulo foi.”
Contemplação num mundo de ação, Thomas Merton

*Memra: termo hebraico que significa o mesmo que o grego Logos (Palavra).

01 outubro 2007

Mais brilhante do que a prata

“ A doutrina segundo a qual o homem encontra sua verdadeira realidade ao lembrar de Deus, a cuja imagem foi criado, é basicamente bíblica, e foi desenvolvida pelos Padres da Igreja em relação à teologia da graça, dos sacramentos e da inabitação do Espírito Santo. Na verdade, a rendição da nossa própria vontade, a ‘morte’ de nosso ego, marcado pelo egoísmo, para viver em puro amor e liberdade de espírito, não é efetuada por nossa própria vontade (seria uma contradição nos termos!), mas pelo Espírito Santo. Resume-se a ‘recuperar a divina semelhança’, ‘render-se à vontade de Deus’, ‘viver por puro amor’ e assim encontrar paz como ‘união com Deus no Espírito’ ou ‘receber, possuir o Espírito Santo’. Esta, como disse São Serafim de Sarov, eremita russo do século XIX, é toda a finalidade da vida cristã (portanto, a fortiori [segue-se logicamente], a vida monástica). São João Crisóstomo diz: ‘Assim como a prata polida iluminada pelos raios solares irradia luz não só da sua própria natureza, mas também a que vem do brilho do sol, assim também uma alma purificada pelo Espírito Divino torna-se mais brilhante do que a prata; tanto recebe o raio da Glória Divina como por si mesma reflete o raio dessa mesma glória.’ Nosso verdadeiro repouso, amor, pureza, visão e quies não é algo em nós mesmos: é Deus, o Espírito Divino. Assim, não ‘possuímos’ repouso, mas saímos de nós mesmos em direção Àquele que é o nosso verdadeiro repouso.”

Contemplation in a World of Action, de Thomas Merton
(Doubleday, Garden City, NY), 1971. p. 287
No Brasil: Contemplação num mundo de ação (Ed. Vozes, Petrópolis), 1975, p. 251-252

Reflexão da semana de 01-10-2007

Um pensamento para reflexão: “Na entrega de si próprio e da sua vontade, sua ‘morte’ para sua identidade do mundo, o monge é renovado à imagem e semelhança de Deus e se torna como um espelho cheio da luz divina.”
Contemplação num mundo de ação, Thomas Merton

24 setembro 2007

Transformados pelo poder do amor

“ Quando as pessoas realmente amam, experimentam muito mais do que apenas a necessidade de companhia e aconchego mútuos. Em sua relação com o outro, tornam-se pessoas diferentes: são mais do que de costume, mais vivas, mais compreensivas, mais pacientes, mais resistentes... São refeitas como seres novos. Transformadas pelo poder do seu amor.

O amor é a revelação do nosso sentido, valor e identidade pessoais mais profundos. Mas esta revelação é impossível enquanto formos prisioneiros de nosso egoísmo. Não posso me encontrar em mim mesmo, mas só em outro. Meu verdadeiro sentido e valor me são mostrados não na avaliação que faço de mim mesmo, mas nos olhos de quem me ama; e este deve me amar como sou, com minhas falhas e limitações, revelando-me a verdade de que essas falhas e limitações não podem destruir meu valor aos olhos daquele que me ama; e que sou, portanto, valioso como pessoa, a despeito de minhas falhas, a despeito das imperfeições do meu “pacote” exterior. O pacote é totalmente desimportante. O que importa é essa mensagem infinitamente preciosa que só posso descobrir no meu amor por outra pessoa. E essa mensagem, esse segredo, só me é plenamente revelado se, ao mesmo tempo, eu for capaz de ver e entender o valor singular e misterioso daquele que amo.”

Love and Living, de Thomas Merton
Editado por Naomi Burton Stone e Patrick Hart, OCSO
(Farrar, Straus and Giroux, New York) 1979, p. 31
No Brasil: Amor e Vida, (Martins Fontes Editora, São Paulo), 2004. p. 36-37
Reflexão da semana de 24-09-2007

Um pensamento para reflexão
: “O amor não é só uma maneira especial de estar vivo: é a perfeição da vida. Aquele que ama está mais vivo e é mais real do que quando não amava.”
Amor e vida, Thomas Merton

17 setembro 2007

O sentido real da vontade de Deus

“ Para conhecer a vontade de Deus, tenho de ter a atitude certa diante da vida. Preciso, em primeiro lugar, saber o que é a vida e qual o propósito da minha existência.

Está muito bem declarar que existo a fim de salvar a minha alma e dar glória a Deus ao fazê-lo. Está muito bem dizer que, para tanto, obedeço a certos mandamentos e observo certos conselhos. Contudo, mesmo sabendo tudo isso e até conhecendo toda a teologia moral, a ética e o direito canônico, ainda posso passar pela vida ajustando-me a certas indicações da vontade de Deus sem jamais me dar plenamente a Deus. Este é, em última análise, o real sentido da Sua vontade. Ele não precisa dos nossos sacrifícios. Ele nos pede nós mesmos. Se prescreve certos atos de obediência, não é porque a obediência seja o princípio e o fim de tudo. É apenas o princípio. Caridade, união divina, transformação em Cristo: estes constituem o fim.”

No Man is an Island
, de Thomas Merton
(Harcourt Brace Jovanovich, Publishers, New York), 1955. p. 63
No Brasil: Homem algum é uma ilha, (Verus Editora, Campinas), 2003. p. 67
Reflexão da semana de 17-09-2007

Um pensamento para reflexão
: “[O] que Deus deseja de mim sou eu mesmo. Isto significa que Sua vontade para mim aponta uma coisa: perceber, descobrir, plenificar o meu eu, o meu eu verdadeiro, em Cristo.”
Homem algum é uma ilha, Thomas Merton

10 setembro 2007

Minha oração é a oração da Igreja

“ A verdadeira dificuldade em definir a consciência cristã é que esta não é nem coletiva nem individual. É pessoal, e é uma comunhão de santos.

Do ponto de vista da oração, quando digo consciência estou falando da que é mais profunda do que a consciência moral. Quando rezo, não estou mais falando com Deus nem comigo amado por Deus. Quando rezo, a Igreja reza em mim. Minha oração é a oração da Igreja.

Isto não se aplica apenas à liturgia: aplica-se também à oração particular, porque sou membro de Cristo. Para rezar de forma válida e profunda, tem de ser com a consciência de mim como sendo mais do que apenas eu mesmo quando rezo. Em outras palavras, não sou só um indivíduo quando rezo, e não sou apenas um indivíduo com graça quando rezo. Quando rezo, sou, em certo sentido, todo mundo. A mente que reza em mim é mais do que minha própria mente; e os pensamentos que me vêm são mais do que os meus próprios pensamentos porque, quando rezo, esta consciência profunda é um lugar de encontro entre eu e Deus, e do amor comum de todos. É a vontade e o amor comuns da Igreja encontrando-se com a minha vontade e a vontade de Deus na minha consciência quando rezo.”

Thomas Merton in Alaska, de Thomas Merton
(New Directions Press, New York),1988, p. 134-135
Reflexão da semana de 10-09-2007

Um pensamento para reflexão: “Encontro-me com outras pessoas não só no contato externo com elas, mas também nas profundezas do meu coração. Em certo sentido, sou mais um com outras pessoas no que há de mais secreto em meu coração do que quando me relaciono externamente com elas.”
Thomas Merton in Alaska, Thomas Merton

03 setembro 2007

Além da ética e da política

“ Ao ler Chuang Tzu, pergunto-me seriamente se a resposta mais sábia (no plano humano, fora a resposta de fé) não está além da ética e da política. É uma resposta oculta; desafia a análise e não pode ser incorporada a um programa. Ética e política, é claro: mas só de passagem, só como ‘pouso para uma noite’. Há um tempo para a ação, um tempo para o ‘compromisso’, mas nunca para o envolvimento total nos meandros de um movimento. Há um tempo de inocência e kairòs, quando a ação faz muitíssimo sentido. Mas quem pode reconhecer esses momentos? Não aquele que está desbordado por uma série de programas. E quando toda ação se torna absurda, será que devemos continuar a agir simplesmente porque uma vez, muito tempo atrás, fazia muitíssimo sentido? Como se estivéssemos sempre indo para algum lugar? Há um tempo para ouvir, na vida ativa como em tudo o mais, e a maior parte da ação consiste em esperar, sem saber o que vem depois e sem ter uma resposta pronta.”

Conjectures of a Guilty Bystander, de Thomas Merton
(Doubleday, New York), 1966. p. 173
No Brasil: Reflexões de um espectador culpado, (Editora Vozes, Petrópolis), 1970. p. 200
Reflexão da semana de 03-09-2007

Um pensamento para reflexão: “Um postulante que chegou ao fim da linha e quer ir embora, mas que foi dissuadido (não por mim), fica na biblioteca do noviciado folheando um livro chamado Relaxe e Viva. Mais cedo ou mais tarde acaba sendo isto.”
Reflexões de um espectador culpado, Thomas Merton

27 agosto 2007

O imenso alívio

[Merton começa a viver em tempo integral em seu eremitério a partir de 20 de agosto de 1965, dia da festa de São Bernardo de Claraval, o Doutor da Igreja cisterciense. No dia 12 de agosto de 1965, escreve este trecho em seu diário:]

“ Esta manhã - cinza, frescor, paz . A inquestionável constatação de como isto é certo, porque vem de Deus e é Sua obra. Tanto poderia ser dito! O que é imediatamente perceptível é o imenso alívio, o fardo da ambigüidade foi retirado e estou sem preocupação - sem a ansiedade de ser tironeado entre meu trabalho e minha vocação . Sinto-me como se todo o meu ser fosse um ato de gratidão - até minhas entranhas estão relaxadas e em paz após uma boa meditação e um longo estudo de Ireneu. Os bosques ao redor estalam com a guerra de guerrilha – os caçadores chegaram para a temporada de esquilos (como se restasse algum esquilo!). Nem esse ritual idiota me impacienta. A seu modo louco, eles também amam o bosque: mas eu gostaria que seu modo fosse menos destrutivo e menos mentiroso. ”

Dancing in the Water of Life . Diários, Volume 5, de Thomas Merton
Robert E. Daggy, editor.
(HarperSanFrancisco, São Francisco), 1997 p. 283
Reflexão da semana de 27-08-2007

Um pensamento para reflexão
: “A bênção da primavera sob os altos pinheiros, no frescor da manhãzinha, atrás do eremitério. A bênção de serrar madeira, cortar mato, limpar a casa, lavar os pratos. A bênção de uma meditação silenciosa, alerta, concentrada, plenamente ‘presente’. A bênção da presença e da condução de Deus.”
Dancing in the Water of Life, Thomas Merton

20 agosto 2007

O contemplativo maduro

“ Um contemplativo maduro é muito mais simples do que qualquer criança ou qualquer noviço, pois a simplicidade destes é mais ou menos negativa — é a simplicidade daqueles em quem complicações em potencial ainda não tiveram a oportunidade de se desenvolver. Mas no contemplativo maduro, porém, todas as complexidades já começaram a se resolver, ao se simplificarem e dissolverem na unidade, no vazio e na paz interior. O contemplativo alimentado pelo vazio, enriquecido pela pobreza e livre de toda tristeza, pela obediência simples, extrai força e alegria da vontade de Deus em todas as coisas.

Sem qualquer necessidade de raciocínios complicados, esforços mentais ou atos especiais, a vida do contemplativo maduro é uma prolongada imersão nos rios de tranqüilidade que fluem de Deus para se derramar sobre o universo e atrair todas as coisas de volta ao Senhor.

Pois o amor de Deus é como um rio que brota das profundezas da substância divina e se derrama incessantemente através da criação, comunicando, em abundância, a todas as coisas, vida, bondade e força.

Tudo, menos nossos pecados, é conduzido e chega a nós nas águas dessa pura e irresistível fonte.”

New Seeds of Contemplation, de Thomas Merton
(New Directions, New York), 1972. p. 266
No Brasil: Novas Sementes de Contemplação, (Editora Fissus, Rio de Janeiro), 2001. p. 260
Reflexão da semana de 20-08-2007

Um pensamento para reflexão
: “Tornamo-nos como vasos esvaziados da água que continham, para poder ser repletos de vinho. Somos como vidraças bem limpas, livres da poeira e da fuligem, a fim de que, ao receber os raios do sol, desapareçam em sua luz.”
Novas sementes de contemplação, Thomas Merton

13 agosto 2007

Origamis da paz















Garças de papel
(O Hibakusha* vem a Gethsemani)

“ Como dizer que uma ave de papel
É mais forte que um falcão
Se não tem garras de aço?
Nem é forçada a matar,
Porque sem fome.

Mais sábia e selvagem que águias,
Paira sobre a terra inteira.
Sem inimigos
Liberta de seus desejos.

A mão da criança
Dobra essas asas.
Sem vencer guerras, dá fim a todas.

Uma intenção de criança
Sem aflição e sem armas!
Assim olhos de criança
Dão vida a tudo que amam
Afáveis sóis inocentes
Libélulas tão graciosas!”

*Hibakusha: sobreviventes do bombardeio de Hiroshima

The Collected Poems of Thomas Merton
(New Directions Press, New York), 1977 p. 740
Reflexão da semana de 13-08-2007

Paper Cranes
(The Hibakusha* come to Gethsemani)

“ How can we tell a paper bird
Is stronger than a hawk
When it has no metal for talons?
It needs no power to kill
Because it is not hungry.

Wilder and wiser than eagles
It ranges around the world
Without enemies
And free of cravings.

The child's hand
Folding these wings
Wins no wars and ends them all.

Thoughts of a child's heart
Without care, without weapons!
So the child's eye
Gives life to what it loves
Kind as the innocent sun
And lovelier than all dragons!”

*Hibakusha are survivors of the bombing of Hiroshima

06 agosto 2007

Estamos sempre viajando

“ Em certo sentido, estamos sempre viajando, e viajando como se não soubéssemos aonde estamos indo.


Em outro sentido, já chegamos.

Não podemos chegar à perfeita posse de Deus nesta vida, e é por isto que estamos viajando e no escuro. Mas já O possuímos pela graça e portanto, neste sentido, já chegamos e habitamos na luz.

Mas como tenho de ir longe para encontrar a Ti em Quem já cheguei!”

The Seven Storey Mountain, de Thomas Merton
(Harcourt, Brace, New York), 1948, p. 419
No Brasil: A montanha dos sete patamares, (Editora Vozes, Petrópolis), 2005, p. 378
Reflexão da semana de 06-08-2007

Um pensamento para reflexão: “Viajarei para Ti, Senhor, por mil becos sem saída. Queres levar-me a Ti através de muros de pedra.”
Entering the Silence, Thomas Merton

30 julho 2007

Contemplação e dependência

“ A contemplação não é apenas um aprofundamento da experiência, mas também uma mudança radical na nossa maneira de ser e de viver, e a essência dessa mudança é precisamente uma libertação da dependência em relação a meios externos para fins externos. É claro que se pode dizer que uma abertura das ‘portas da percepção’ não é algo totalmente ‘externo’; no entanto, é uma satisfação que pode acabar suscitando uma necessidade habitual e da qual se pode ficar dependente. A verdadeira contemplação liberta de todas essas formas de dependência. Nesse sentido, parece-me que uma vida contemplativa que dependa do uso de drogas é essencialmente diferente de uma que implique libertação da dependência em relação a tudo o que não seja a liberdade e a graça divina. Sei que estas poucas observações não respondem à real indagação [sobre drogas e contemplação], mas expressam minha própria dúvida.”

Faith and Violence: Christian Teaching and Christian Practice, de Thomas Merton
(University of Notre Dame Press, Notre Dame, Indiana), 1968, p. 217
Reflexão da semana 30-07-2007

Um pensamento para reflexão: “Nossa sociedade tecnológica não tem mais lugar para a sabedoria que busca a verdade por si mesma, que busca a plenitude do ser, que procura repousar em uma intuição do próprio chão de todo ser. Sem sabedoria, a aparente oposição entre ação e contemplação, entre trabalho e repouso, entre envolvimento e desapego nunca pode ser resolvida.”
Faith and Violence, Thomas Merton

23 julho 2007

Amortecimento da consciência

[Carta a Jean e Hildegard Goss-Mayer]

“ As vezes é desalentador ver como é pequeno o movimento pacifista cristão, especialmente aqui nos Estados Unidos, onde é mais necessário. Mas temos de lembrar que este é o padrão habitual, e a Bíblia leva-nos a esperar que seja assim. O trabalho espiritual é feito com instrumentos desproporcionalmente pequenos e fracos. E sobretudo agora, quando tudo é tão profundamente complexo, e quando as pessoas desmoronam sob o fardo de confusões e param por completo de pensar, é natural que poucos estejam dispostos a assumir o ônus de tentar realizar algo, da maneira moral e espiritual, na ação política. Mas é precisamente isto que necessita ser feito.

O grande perigo é que, sob a pressão da ansiedade e do medo, com a alternância de crise e relaxamento e nova crise, as pessoas do mundo acabem aceitando aos poucos a idéia de guerra, de submissão ao poder totalitário e da renúncia à razão, ao espírito e à consciência individual. O grande perigo da guerra fria é o amortecimento progressivo da consciência.

Deposito muita confiança em sua ajuda e amizade. Envie-me qualquer coisa que, a seu ver, possa servir à causa da paz, e reze para que, em tudo, eu possa agir com sabedoria.”

The Hidden Ground of Love, Letters, de Thomas Merton
Editado por William Shannon
(Ferrar, Straus, Giroux Publishers, New York ), 1985, p. 325-326
Reflexão da semana de 23-07-2007

Um pensamento para reflexão
: “Hoje é a festa de Santo Hilário [14 de janeiro], Doutor da Igreja, que disse: ‘A melhor maneira de resolver o problema de dar a César o que é de César é não ter nada que seja de César.’”
The Hidden Ground of Love, Thomas Merton

16 julho 2007

Dizer 'sim' quando possível

“ A heresia do individualismo: crer-se uma unidade inteiramente auto-suficiente e afirmar essa ‘unidade’ imaginária contra todos os demais: a afirmação do eu apenas como 'não o outro'. O verdadeiro caminho é justamente o oposto: quanto mais eu for capaz de afirmar os outros, dizer-lhes ‘sim’ em mim mesmo, descobrindo-os em mim e a mim mesmo neles, tanto mais real serei. Sou plenamente real se o meu próprio coração disser sim a todos.

Serei melhor católico não se refutar todos os matizes do protestantismo, mas se puder afirmar a verdade que existe nele e ir além.

Assim também em relação aos muçulmanos, aos hindus, aos budistas, etc. Isto não significa sincretismo, indiferentismo, uma atitude amistosa vazia e despreocupada que tudo aceita sem refletir sobre nada. Há muita coisa que não se pode ‘afirmar’ e 'aceitar', mas primeiro é preciso dizer 'sim' ali onde é realmente possível.

Se eu me afirmar como católico apenas negando tudo que é muçulmano, judeu, protestante, hindu, budista, etc., no fim descobrirei que não resta muita coisa para afirmar como católico: e certamente nenhum sopro do Espírito com o qual possa afirmá-lo.”

Conjectures of a Guilty Bystander, de Thomas Merton
(Doubleday, New York), 1966. p. 144
No Brasil: Reflexões de um espectador culpado, (Editora Vozes, Petrópolis), 1970. p. 166
Reflexão da semana de 16-07-2007

Um pensamento para reflexão: “Se eu não tiver unidade em mim, como poderei pensar, e menos ainda em falar, em unidade entre cristãos? Mas é claro que, procurando a unidade para todos os cristãos, consigo também em mim a unidade.
Reflexões de um espectador culpado, Thomas Merton

09 julho 2007

Contemplação: Deus em nossa vida cotidiana

“ A contemplação é mais do que a mera consideração de verdades abstratas sobre Deus; mais, até, do que a meditação afetiva das coisas em que cremos. É um despertar, uma iluminação, e a compreensão intuitiva e maravilhosa, com que o amor se certifica da intervenção criadora e dinâmica de Deus em nossa vida cotidiana. A contemplação, portanto, não ‘encontra’ simplesmente uma idéia clara sobre Deus, confinando-o dentro dos limites dessa idéia, retendo-o como um prisioneiro a quem se pode sempre voltar. Pelo contrário, a contemplação é que é por Ele arrebatada e transportada ao seu próprio domínio, ao seu mistério, à sua própria liberdade. É um conhecimento puro e virginal, pobre em conceitos, mais pobre ainda em raciocínios, mas capaz, por sua própria pobreza e pureza, de seguir a Palavra ‘aonde quer que vá’.”

New Seeds of Contemplation, de Thomas Merton
(New Directions, New York), 1972. p. 5
No Brasil: Novas Sementes de Contemplação, (Editora Fissus, Rio de Janeiro), 2001. p. 12-13
Reflexão da semana de 09-07-2007

Um pensamento para reflexão: “A contemplação jamais poderá ser objeto de ambição calculada. Não é algo que planejamos obter por nossa razão prática; é a água viva do espírito de que estamos sequiosos como o cervo sequioso à procura das fontes cristalinas em pleno deserto.”
Novas sementes de contemplação, Thomas Merton

02 julho 2007

Oração e liberdade pessoal

“ A oração é a mais verdadeira garantia da liberdade pessoal. Somos mais verdadeiramente livres no livre encontro de nossos corações com Deus em Sua palavra e ao recebermos o Seu Espírito, que é o Espírito de verdade e liberdade . A Verdade que nos liberta não é uma mera questão de informação sobre Deus, mas a presença em nós, por amor e graça, de uma pessoa divina que nos leva a participar da vida pessoal íntima de Deus como Seus Filhos [e Filhas] adotivos. Esta é a base de toda oração, e toda oração deve estar voltada para este mistério da adoção na qual o Espírito em nós reconhece o Pai. O clamor do Espírito em nós, o clamor do reconhecimento de que somos Filhos [e Filhas] no Filho, é o cerne da nossa oração e o maior motivo de oração. Portanto, recolhimento não é exclusão de coisas materiais, e sim atenção ao Espírito no mais íntimo do nosso coração. A vida contemplativa não deve ser encarada como uma prerrogativa exclusiva dos que residem entre paredes monásticas. Todos podem procurar e encontrar essa consciência e despertar íntimos que são dons de amor e um toque vivificante de poder criador e redentor, do poder que ergueu Cristo de entre os mortos e que nos limpa das obras de morte para servirmos ao Deus vivo. Hoje com certeza é preciso enfatizar que a oração é uma real fonte de liberdade pessoal em meio a um mundo no qual somos dominados por organizações imponentes e instituições rígidas que só procuram nos explorar para obter dinheiro e poder. Longe de ser a causa da alienação, a verdadeira religião em espírito é uma força libertadora que nos ajuda a encontrar-nos em Deus .”

The Hidden Ground of Love, Letters, de Thomas Merton
Editado por William Shannon
(Ferrar, Straus, Giroux Publishers, New York ), 1985, p. 159
Reflexão da semana de 02-07-2006

Um pensamento para reflexão: “Deus procura a Si mesmo em nós, e a aridez e o pesar do nosso coração são o pesar de Deus que não é conhecido em nós, que não pode encontrar a Si mesmo porque não ousamos acreditar ou confiar na incrível verdade de que Ele pode viver em nós, e o faz por escolha, por preferência. Mas de fato existimos somente para isto: para sermos o lugar que Ele escolheu para Sua presença, Sua manifestação no mundo, Sua epifania.”
The Hidden Ground of Love, Thomas Merton

25 junho 2007

A primazia do amor

“ Em todos os Verba Seniorum [Os ditos dos padres do deserto] encontramos uma repetida insistência na primazia do amor sobre tudo o mais na vida espiritual: conhecimento, gnose, ascese, contemplação, solidão, oração. Na verdade, o amor é a vida espiritual e, sem ele, todos os outros exercícios do espírito, por mais elevados que sejam, são esvaziados de conteúdo e se tornam meras ilusões. Quanto mais elevados forem, mais perigosa será a ilusão.

É claro que amor significa muito mais do que mero sentimento, muito mais do que favores isolados e esmolas superficiais. Amor significa uma identificação interior e espiritual com o próximo, de tal maneira que a pessoa não mais o vê como ‘objeto’ ao ‘qual’ se ‘faz o bem’. O fato é que um bem feito a outro como objeto tem pouco ou nenhum valor espiritual. O amor assume o próximo como outro eu, e o ama com toda a imensa humildade, discrição, reserva e reverência sem as quais ninguém pode pretender entrar no santuário da subjetividade do outro. Devem estar necessariamente ausentes desse amor toda brutalidade autoritária, toda exploração, dominação e condes-cendência. Os santos do deserto eram inimigos de qualquer expediente, sutil ou grosseiro, ao qual ‘o homem espiritual’ recorre para intimidar os que acha inferiores a si mesmo, gratificando assim seu próprio ego. Eles renunciaram a tudo o que cheirasse a punição e vingança, por mais oculto que pudesse estar.”

The Wisdom of the Desert, de Thomas Merton.
(New Directions Press, . New York), 1960, p. 17-18
No Brasil: A sabedoria do deserto, (Martins Fontes Editora, São Paulo), 2004. p. 18-19
Reflexão da semana de 25-06-2007
Um pensamento para reflexão: “O amor exige uma transformação interna completa , pois sem isto não podemos nos identificar com nosso irmão [e irmã]. De certa maneira, temos de tornar-nos a pessoa que amamos.”
A sabedoria do deserto, Thomas Merton

24 junho 2007

Amigos de Portugal


Eiras, uma aldeia de Portugal e uma das 51 freguesias da Vila de Arcos de Valdevez, com pouco mais de 300 habitantes é uma das localidades onde reside um leitor das Reflexões de Thomas Merton!
É significativo o número de blogs sediados no nosso país irmão que referenciam nosso blog e atraem a cada dia mais admiradores dos escritos de Thomas Merton.

20 junho 2007

Babel, potestades e elementos

“ Embora haja mais de um modo de preservar a liberdade dos filhos de Deus, a maneira à qual fui chamado é a da vida monástica.

A visão de Paulo sobre os ‘elementos’ e as ‘potestades do ar’ foi formulada na linguagem da cosmologia de seu tempo. Traduzida na linguagem de nossa própria época, eu diria que essas misteriosas realidades devem ser procuradas onde menos as esperamos, não no que é distante e misterioso, e sim no que é mais familiar, no que está ao alcance da mão, no que esbarramos o dia inteiro – no que fala ou canta ao nosso ouvido e praticamente pensa por nós. As ‘potestades’ e ‘elementos’ são precisamente o que se interpõe entre o mundo e Cristo. São eles que barram o caminho da reconciliação. São eles que, influenciando todo o nosso pensamento e comportamento de tantas maneiras insuspeitadas, fazem-nos tender a decidir pelo mundo e contra Cristo, impossibilitando assim a reconciliação.

Claramente, as ‘potestades’ e os ‘elementos’, que na época de Paulo dominavam a mente dos homens por intermédio da religião pagã ou do legalismo religioso, hoje nos dominam na confusão e na ambigüidade da Babel de línguas que chamamos de sociedade de massas. É claro que não condeno tudo nos meios de comunicação de massas. Mas como parar para distinguir a verdade da meia-verdade, o acontecimento do pseudo-acontecimento, a realidade da imagem fabricada? É nesta confusão de imagens e mitos, superstições e ideologias que as ‘potestades do ar’ governam o nosso pensamento – até o nosso pensamento sobre religião! Como evitar a ilusão e a confusão se não houver perspectiva crítica, observação distanciada, tempo para fazer as perguntas pertinentes?”

Faith and Violence: Christian Teaching and Christian Practice, de Thomas Merton
(University of Notre Dame Press, Notre Dame, Indiana) 1968, p. 150.
Reflexão da semana de 18-06-2007

Um pensamento para reflexão: “Alguém precisa tentar manter a mente livre de ruído e preservar a solidão e o silêncio interiores que são essenciais para o pensamento independente.”
Faith and Violence, Thomas Merton

11 junho 2007

O mais pesado dos fardos

“ Dá-me a força que espera em Ti em silêncio e em paz. Dá-me a humildade — somente nela se encontra o repouso — e liberta-me do orgulho, o mais pesado dos fardos. Toma posse, totalmente, de meu coração e de minha alma com a simplicidade do amor. Ocupa, inteiramente, minha vida com o único pensamento e o único desejo de amar, para que eu possa amar não por causa do mérito, nem por causa da perfeição, nem por causa da virtude, nem por causa da santidade. Mas por Ti só.

Pois há somente uma coisa que possa satisfazer o amor e recompensá-lo: Tu, unicamente Senhor.”

New Seeds of Contemplation, de Thomas Merton
(New Directions, New York), 1972. p. 45
No Brasil: Novas Sementes de Contemplação, (Editora Fissus, Rio de Janeiro), 2001. p. 52
Reflexão da semana de 11-06-2007

Um pensamento para reflexão: “Que meu olhos nada vejam nesse mundo, a não ser a Tua glória, e que minhas mãos nada toquem, senão o que for do Teu serviço.”
Novas sementes de contemplação, Thomas Merton

04 junho 2007

Progresso da pessoa e da sociedade

“ O progresso da pessoa e o progresso da sociedade caminham juntos. Nosso mundo moderno não pode alcançar a paz e uma ordem social plenamente eqüitativa apenas por meio da aplicação das leis que atuam sobre a humanidade, vindas de fora de nós, por assim dizer. A transformação da sociedade começa dentro da pessoa. Começa com o amadurecimento e a abertura de nossa liberdade pessoal em relação a outras liberdades — em relação ao resto da sociedade. A ‘doação’ cristã que é exigida de nós é uma participação inteligente e plena na vida de nosso mundo, não somente com base na lei natural, mas também na comunhão e reconciliação do amor interpessoal. Isto significa uma capacidade de estar abertos aos outros como pessoas, de desejar para os outros tudo o que sabemos ser necessário a nós mesmos, tudo o que se precisa para o pleno crescimento e até para a felicidade temporal de uma existência plenamente pessoal.”

Love and Living, de Thomas Merton
Editado por Naomi Burton Stone e Patrick Hart, OCSO
(Farrar, Straus and Giroux, New York) 1979, p. 155
No Brasil: Amor e Vida, (Martins Fontes Editora, São Paulo), 2004. p. 164
Reflexão da semana de 04-06-2007

Um pensamento para reflexão: “Como o homem chega a uma união real de amor com seu próximo? Não meramente por uma concordância abstrata quanto às verdades relativas ao fim de todas as coisas e à vida após a morte, mas por uma colaboração realista nas atividades da vida cotidiana no mundo dos fatos concretos no qual o homem tem de trabalhar para comer.”
Amor e vida, Thomas Merton

28 maio 2007

Vosso amor me acompanhou nesta viagem

“Senhora, quando naquela noite saí da Ilha, que foi outrora vossa Inglaterra, vosso amor me acompanhou, ainda que eu não pudesse sabê-lo nem dele tomar consciência. Foi vosso amor, vossa intercessão por mim perante Deus, que estava preparando os mares diante de mim, abrindo-me o caminho para outro país.

Eu não tinha certeza para onde ia nem podia imaginar o que faria em Nova Iorque. Mas vós vistes mais longe e com mais clareza e abristes os mares diante de meu navio, cuja trajetória me levou por sobre as águas a um lugar com que jamais havia sonhado, mas que já então estáveis preparando para ser minha salvação, meu refúgio e meu lar. E quando eu achava que não havia Deus, não havia amor nem misericórdia, vós me conduzíeis o tempo todo para dentro de Seu amor e misericórdia, levando-me, sem meu conhecimento, para a casa que me ocultaria no segredo de Sua Face.”

The Seven Storey Mountain, de Thomas Merton
(Harcourt, Brace, New York), 1948, p. 129-130
No Brasil: A montanha dos sete patamares, (Editora Vozes, Petrópolis), 2005, p. 161-162
Reflexão da semana de 28-05-2007

Um pensamento para reflexão: “Preciso muito de oração com um coração contrito, com pensamentos mais humildes sobre dizer e fazer o que eu digo e faço. Tento parecer sábio, mas não temo a Deus sem o quê não há um começo para a sabedoria.”
A Search for Solitude. Journals, volume 4, Thomas Merton

21 maio 2007

Guardião de seu irmão

“ Uma pessoa é definida em termos de liberdade, portanto em termos de responsabilidade também: responsabilidade para com outras pessoas, responsabilidade pelas outras pessoas. Em termos concretos, o cristão não é apenas alguém que busca a expansão e o desenvolvimento de sua própria individualidade e a satisfação de suas mais legítimas necessidades naturais, mas alguém que se reconhece responsável pelo bem dos outros, pela realização temporal e eterna salvação deles.

Por isso, a pessoa cristã alcança a maturidade quando compreende que cada um de nós é, de fato, ‘um guardião de seu irmão’ e que, se há homens sofrendo e morrendo na Ásia ou na África, outros homens, na Europa e na América, estão intimados a submeter-se ao tribunal da consciência para examinar se, de fato, alguma decisão ou alguma negligência sua provocou esse sofrimento e essas mortes que, de alguma forma, poderiam parecer muito estranhas e remotas.

Pois hoje o mundo todo está estreitamente ligado por laços econômicos, culturais e sociológicos que nos tornam todos, em certa medida, responsáveis pelo que acontece aos outros nos lugares mais distantes da Terra. O homem é hoje não apenas um ser social; sua natureza social transcende os limites regionais e nacionais e, gostemos ou não, temos de pensar em termos de uma só família humana, um só mundo.”

Love and Living, de Thomas Merton
Editado por Naomi Burton Stone e Patrick Hart, OCSO
(Farrar, Straus and Giroux, New York) 1979, p. 152-153
No Brasil: Amor e Vida, (Martins Fontes Editora, São Paulo), 2004. p. 161-162
Reflexão da semana de 21-05-2007

Um pensamento para reflexão: “O centro do humanismo cristão é a idéia de que Deus é amor e não poder infinito.
Amor e vida, Thomas Merton

14 maio 2007

Preciso de ti

[Trecho de oração a Nossa Senhora do Monte Carmelo]
“ Ensina-me a ir para o campo, além das palavras e dos nomes. Ensina-me a orar deste lado da fronteira, aqui no meio destes bosques.

Preciso ser conduzido por ti. Preciso que meu coração seja guiado por ti. Preciso que minha alma seja limpa por tua oração. Preciso que minha vontade seja fortalecida por ti. Preciso que o mundo seja salvo e mudado por ti. Preciso de ti para cuidar de todos os que sofrem, que estão presos, em perigo, aflitos. Preciso de ti para os loucos deste mundo. Preciso da tua mão que cura para que esteja sempre presente em minha vida. Preciso de ti para tornar-me, como teu Filho, uma pessoa que cura, conforta e que salva. Preciso de ti para dar nome aos mortos. Preciso de ti para ajudar os que estão morrendo a cruzar os seus rios. Preciso de ti para mim, quer eu viva ou morra. Preciso de ti para ser teu monge e teu filho. Tudo isso é necessário. Amém.”

A Search for Solitude — Journals, Volume 3, de Thomas Merton
Editado por Lawrence S. Cunningham
(HarperSanFrancisco, San Francisco), 1997, p. 46-47
Reflexão da semana de 14-05-2007

Um pensamento para reflexão: “ Mostra-nos o teu Cristo, Senhora, após este nosso exílio, sim, mas mostra-nos ele, também, agora e aqui, enquanto ainda vagamos.”
A montanha dos sete patamares, Thomas Merton

07 maio 2007

O paraíso nos envolve e não entendemos

“ Os primeiros chilreios dos pássaros ao acordar marcam o point-vierge [ponto virgem] da aurora sob um céu ainda desprovido de verdadeira luz. É um momento de temor reverente e de inexprimível inocência, quando o Pai, em perfeito silêncio, lhes abre os olhos. Eles começam a Lhe falar, não em um canto fluente, mas com uma pergunta de despertar que é o estado de aurora deles, seu estado no point-vierge. Sua condição pergunta se para eles é tempo de ‘ser’. Ele responde “sim”. Então, um por um, despertam e se tornam passarinhos. Manifestam-se como passarinhos e começam a cantar. Logo serão plenamente eles mesmos e até voarão.

Aqui há um segredo inefável: o paraíso nos envolve e não entendemos. Está escancarado. A espada foi retirada, mas não sabemos. Partimos: 'um para sua fazenda, outro para seus negócios.' Luzes acesas. Tique-taque dos relógios. Barômetros em ação. Fogões cozinhando. Barbeadores elétricos enchendo os rádios de estática. ‘Sabedoria’ clama o diácono da aurora, mas não acorremos.”

Conjectures of a Guilty Bystander, de Thomas Merton
(Doubleday, New York), 1966. p. 131-132
No Brasil: Reflexões de um espectador culpado, (Editora Vozes, Petrópolis), 1970. p. 151-152
Reflexão da semana de 07-05-2007

Um pensamento para reflexão: “O momento mais maravilhoso do dia é quando, em sua inocência, a criação pede licença para ‘ser’ de novo, como na primeira manhã de todos os tempos.”
Reflexões de um espectador culpado, Thomas Merton

30 abril 2007

A fé em tempo de luta

“ A fé nos diz, é claro, que vivemos em um tempo de luta escatológica, enfrentando um árduo combate que conjura todas as forças do mal e das trevas contra a verdade ainda invisível, mas que este combate já está decidido pela vitória de Cristo sobre o pecado e a morte.

O cristão pode renunciar à proteção da violência e correr o risco de ser humilde, e portanto vulnerável, não por confiar na suposta eficácia de uma tática suave e persuasiva que desarmará o ódio e abrandará a crueldade, mas por acreditar que o poder oculto do Evangelho está pedindo para ser manifestado em e através de sua própria pobre pessoa.

Assim sendo, em perfeita obediência ao Evangelho, apaga-se a si mesmo e a seus próprios interesses e até arrisca sua vida para dar testemunho, não apenas ‘da verdade’ em sentido idealista e puramente platônico, mas da verdade que é encarnada em uma situação humana concreta, envolvendo pessoas vivas cujos direitos são negados ou cujas vidas estão ameaçadas.”


Faith and Violence: Christian Teaching and Christian Practice, de Thomas Merton:
(University of Notre Dame Press, Notre Dame, Indiana), 1968, p. 18-19
Reflexão da semana 30-04-2007

Um pensamento para reflexão: “Um santo zelo pela causa da humanidade no abstrato às vezes pode ser mero desamor e indiferença pelos seres humanos vivos e concretos. Quando apelamos para os ideais mais elevados e nobres, somos mais facilmente tentados a odiar e condenar aqueles que, a nosso ver, atrapalham perversamente sua realização.”
Faith and Violence, Thomas Merton

23 abril 2007

Para os que estão de luto

“ O amor é a epifania de Deus em nossa pobreza. Assim, a vida contemplativa é a busca de paz não em uma exclusão abstrata de toda realidade externa, não em um fechamento estéril e negativo dos sentidos ao mundo, mas na abertura do amor. [A vida contemplativa] começa com a aceitação do meu próprio eu em minha pobreza e quase desespero para que eu possa reconhecer que onde Deus está não pode haver desespero, e Deus está em mim, mesmo se eu me desesperar.

Nada pode mudar o amor de Deus por mim, pois minha própria existência é o sinal de que Deus me ama, e a presença de Seu amor me cria e me sustenta. Tampouco é necessário, em absoluto, entender ou explicar como é possível, nem resolver os problemas que isto parece levantar. Isto porque, em nossos corações e no próprio fundamento do nosso ser há uma certeza natural que é co-extensiva com nossa própria existência: a certeza que diz que, na medida em que existimos, somos cada vez mais penetrados pelo senso e pela realidade de Deus, embora talvez sejamos profundamente incapazes de acreditar nisto ou vivenciá-lo em termos filosóficos ou mesmo religiosos.

A mensagem de esperança [que lhes transmito, portanto,] não é que precisam encontrar seu caminho em meio ao emaranhado da linguagem e dos problemas que hoje cercam Deus, e sim que, quer você entenda ou não, Deus o ama, está presente em você, vive em você, habita em você, chama-o, salva-o e lhe oferece uma compreensão e uma luz diferentes de tudo que você jamais encontrou em livros e ouviu em sermões.

[Não tenho] nada a contar, mas quero tranqüilizá-lo e dizer que, se ousar penetrar em seu próprio silêncio e correr o risco de compartilhar essa solidão com o outro solitário que procura Deus através de você, você realmente recuperará a luz e a capacidade de entender o que está além de palavras e explicações porque está perto demais para ser explicado: é a união íntima, na profundeza do seu próprio coração, do espírito de Deus com o seu eu mais interior e secreto, de forma que você e Deus sejam, com toda verdade, Um Espírito. Eu o amo, em Cristo.”

The Hidden Ground of Love, de Thomas Merton
Editado por William H Shannon
(Farrar, Straus & Giroux, New York), 1985. p. 157-158
Reflexão da semana 23-04-2007

Um pensamento para reflexão: “Nada faz sentido se não admitirmos o que diz John Donne: 'Homem algum é uma ilha, inteiro em si mesmo; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme.'"
Homem algum é uma ilha, Thomas Merton

16 abril 2007

Procurar Deus em todas as coisas

“ Devemos procurar Deus em todas as coisas. Mas não O buscamos como se procura um objeto perdido, uma ‘coisa’. Ele está presente a nós em nosso coração, em nossa subjetividade pessoal. Procurá-lo é reconhecer este fato. Contudo, só podemos ter consciência desta realidade se Ele nos revelar sua presença. Ele não se revela simplesmente em nosso próprio coração. Revela-se a nós na Igreja, na comunidade dos que crêem, na koinonia [assembléia litúrgica] dos que nele confiam e o amam.

Procurar Deus não é apenas uma operação do intelecto, nem sequer uma iluminação contemplativa da mente. Procuramos Deus ao esforçar-nos para nos entregar a Ele, que não vemos, mas que está em todas as coisas, através de todas as coisas e acima de todas as coisas.”

Seasons of Celebration, de Thomas Merton
(Farrar, Straus and Giroux, New York), 1965. p. 223-224
No Brasil: Tempo e Liturgia, (Editora Vozes, Petrópolis), 1968. p. 224
Reflexão da semana de 16-04-2007



Um pensamento para reflexão: “Possuímos a graça de Cristo, único que pode nos libertar do ‘corpo desta morte’. Aquele que está em nós é maior do que o mundo. Ele ‘venceu o mundo’.”
Tempo e liturgia, Thomas Merton

09 abril 2007

Partilhando da vitória de Cristo

“ Não é a observância obrigatória que nos preserva do pecado, mas algo de muito maior: é o amor. E esse amor não é algo que desenvolvamos apenas com nossas próprias forças. É um dom sublime da misericórdia divina, e o fato de que vivemos na consciência dessa misericórdia e desse dom é a maior fonte de crescimento para o nosso amor e nossa santificação.

Esse dom, essa misericórdia, esse amor ilimitado de Deus por nós, foi derramado sobre nós como resultado da vitória de Cristo. Saborear esse amor é partilhar de sua vitória. Ter consciência de nossa liberdade, exultar em nossa liberação da morte, do pecado, da Lei, é cantar o aleluia que glorifica realmente a Deus neste mundo e no mundo que há de vir.”

Seasons of Celebration, de Thomas Merton
(Farrar, Straus and Giroux, New York), 1965. p. 156-157
No Brasil: Tempo e Liturgia, (Editora Vozes, Petrópolis), 1968. p. 159
Reflexão da semana de 09-04-2007

Um pensamento para reflexão: “Cada dia é uma nova aurora daquele lumen Christi, a luz de Cristo que não conhece ocaso.”
Tempo e liturgia, Thomas Merton

02 abril 2007

A lei de um amor misericordioso

“ O cristão não tem outra Lei senão Cristo. Sua “Lei” é a vida nova que lhe foi conferida em Cristo. A nossa Lei não está escrita em livros, e sim nas profundezas do nosso coração; não pela mão de seres humanos, mas pelo dedo de Deus. O nosso dever agora não é apenas obedecer, e sim viver. Não temos de nos salvar, somos salvos por Cristo. Devemos viver para Deus em Cristo, não só como quem procura a salvação, mas como quem está salvo.”

Seasons of Celebration, de Thomas Merton
(Farrar, Straus and Giroux, New York), 1965. p. 147
No Brasil: Tempo e Liturgia, (Editora Vozes, Petrópolis), 1968. p. 150
Reflexão da semana de 02-04-2007

Um pensamento para reflexão: “Mas agora, com a ressurreição de Cristo, o poder da Páscoa irrompeu sobre nós. Agora, encontramos em nós uma força que não é nossa e que nos é dada livremente sempre que dela necessitamos, elevando-nos acima da Lei, dando-nos uma nova Lei que se acha escondida em Cristo: a lei do Seu amor misericordioso por nós.”
Tempo e liturgia, Thomas Merton

26 março 2007

Culto público e personalismo

“ A contemplação é um dom de Deus dado na sua Igreja e através dela e de sua oração. Santo Antão foi levado ao deserto, não por uma voz particular, mas pela palavra de Deus proclamada na igreja de sua aldeia egípcia, no canto do Evangelho na língua copta — um exemplo clássico da liturgia abrindo o caminho para uma vida de contemplação! A liturgia, porém, não pode cumprir esta função se não compreendermos ou se subestimarmos o valor essencialmente espiritual da oração pública cristã. Se nos aferrarmos a noções imaturas e limitadas do que é ‘privacidade’, nunca poderemos nos libertar das amarras do individualismo. Jamais compreenderemos a maneira como a Igreja nos liberta de nós mesmos pelo culto público, cujo caráter precisamente público tende a nos ocultar no ‘segredo da face de Deus’”

Seasons of Celebration, de Thomas Merton
(Farrar, Straus and Giroux, New York), 1965. p. 26-27
No Brasil: Tempo e Liturgia, (Editora Vozes, Petrópolis), 1968. p. 30-31
Reflexão da semana de 26-03-2007

Um pensamento para reflexão: “O amor é a garantia de que a vida do Espírito está crescendo em nós — o amor é o sinal do Espírito Santo operando na Igreja e no mundo.”
Tempo e liturgia, Thomas Merton

19 março 2007

O paradoxo do personalismo cristão

“ É precisamente por ser pública, no sentido clássico da palavra, ou ‘política’, que a liturgia permite que descubramos e expressemos o sentido mais profundo do personalismo cristão. Primeiro é preciso sair do âmbito privado, ‘doméstico’, que é o espaço da necessidade, próprio às crianças e aos escravos, que ainda não têm pensamento próprio e estão completamente absorvidos por suas necessidades corporais e emocionais. Devemos ser capazes de deixar de lado a preocupação ‘econômica’ em relação ao nosso eu superficial e emergir à luz da pólis cristã, onde cada um vive, não para si, mas para os outros, assumindo a responsabilidade pelo todo. É claro que ninguém assume esta responsabilidade por mera obediência a um capricho arbitrário, ou na ilusão de ser capaz de carregar nos próprios ombros os problemas de toda a Assembléia. Emerge-se ‘em Cristo’ para partilhar o trabalho e o louvor do Cristo total, e para isto tem de sacrificar seu próprio eu superficial e particular. O fruto paradoxal deste sacrifício do eu trivial e ‘egoísta’ (ou apenas imaturo) é que a pessoa se torna apta a descobrir seu eu profundo, em Cristo.”

Seasons of Celebration, de Thomas Merton
(Farrar, Straus and Giroux, New York), 1965. p. 25
No Brasil: Tempo e Liturgia, (Editora Vozes, Petrópolis), 1968. p. 29-30
Reflexão da semana de 19-03-2007

Um pensamento para reflexão: “O mais alto paradoxo do personalismo cristão é ser um indivíduo ‘encontrado em Jesus Cristo’ e, assim, ‘perdido’ para tudo aquilo que, do ponto de vista mundano, pode ser considerado como sendo o seu ‘eu’. Isto significa ser, ao mesmo tempo, você e Cristo.”
Tempo e liturgia, Thomas Merton