07 setembro 2004

Que livro é este?


“Que tipo de livro é esse?” Esta pergunta não pode ser respondida sem levar em conta a afirmação muito peculiar que cristãos, judeus e até muçulmanos fazem sobre a Bíblia: afirmação que causa indignação a muitas pessoas modernas. Afirmam que esse livro é diferente de todos os outros, e que o próprio destino do ser humano depende dele.
Não é possível entender nada sobre a Bíblia sem encarar o fato de que essa afirmação é feita a sério, e de que a indignação que causa também é totalmente séria. Nenhuma das duas pode ser menosprezada. É da própria natureza da Bíblia deixar a mente humana confusa, perplexa e surpresa. Portanto, o leitor que abre a Bíblia deve estar preparado para sentir desorientação, confusão, incompreensão e talvez indignação.
A Bíblia é, sem dúvida alguma, um dos livros mais insatisfatórios já escritos, pelo menos até o leitor conciliar-se com ele de forma muito especial. Mas é difícil chegar a um acordo com esse livro. Talvez seja muito mais fácil se a gente só fingir que a questão está resolvida de antemão: ouvimos outros dizerem que é um “Livro Sagrado”, acreditamos neles e decidimos não nos envolver. Que o leiam nas igrejas: nós os respeitamos por isso, e respeitamos seu livro! Deixamos que “eles” o leiam e às vezes talvez ouçamos respeitosamente sua leitura. Podemos até chegar a ler um pouquinho com eles, da maneira como “eles” o leem.
Assim, desde o início, tendemos a adotar, mesmo quando temos fé, uma posição curiosamente alienada em relação à Bíblia. Nós nos aproximamos da Bíblia cautelosamente, levando em conta as afirmações que outros fazem a seu respeito. Essas afirmações não podem ser ignoradas. Mas são alegações de outros que nos dizem do que precisamos antes mesmos que tenhamos a ocasião de determinar nossas próprias necessidades e formular nossas próprias perguntas. E eles apontam o que a Bíblia requer de nós antes que a própria Bíblia tenha a oportunidade de dar a conhecer o que ela mesma diz.
No entanto, não devemos achar que somos obrigados a aceitar de forma acrítica todas as alegações oficiais ou de grupos. Na verdade, devemos ter a coragem de nos dispor a distinguir as afirmações que as pessoas de fé fazem sobre a Bíblia e as afirmações, talvez até mais vultosas, que fazem sobre si mesmas por causa da Bíblia. Obviamente, aqui não é o lugar para examinar estas últimas. Basta saber que existem e admitir que as pessoas de fé tendem a circundar a Bíblia de problemas ainda maiores que os que esta mesma apresenta.
Desde o início, portanto, precisamos esclarecer o significado da afirmação básica da Bíblia de que é “a palavra de Deus”. Devemos entender que esta afirmação não significa que a Bíblia seja um livro totalmente desencarnado, uma mensagem vinda da eternidade, uma desdenhosa rejeição do mundo em um anúncio vindo “lá de fora”, de além dos confins do tempo e do espaço. A Bíblia não é uma negação do mundo, uma rejeição do ser humano, uma negação do tempo e da história e uma condenação de tudo que o ser humano fez em seu mundo e na história. A Bíblia também não é algo destinado a ser superposto ao mundo, ao ser humano e à história de fora para dentro, uma revelação adicional de um significado oculto suplementar, algo que esteja totalmente além das preocupações cotidianas das pessoas e de sua existência habitual, algo que tenha de ser aceito embora seja supérfluo, e que deva ter prioridade em relação à realidade ordinária conhecida, que nos parece mais relevante.
Em outras palavras, a reivindicação básica da Bíblia é não ser interpretada em termos como estes: “Sim, existe um mundo comum no qual você vive sua vida normal com os demais seres humanos. Mas esse mundo é mau e você é insignificante. Enquanto continua a viver nele e obedecer a suas regras, você precisar aprender meticulosamente todo um novo conjunto de verdades que lhe parecerão sem sentido e incompreensíveis, e você tem de acrescentar esta superestrutura de ideias estranhas ao que você vê e conhece por meio de sua razão natural.
Thomas Merton
(trecho retirado da introdução do livro)

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