07 setembro 2004

O pao no deserto


do Prólogo

De que trata este livro? Para quem foi escrito?

É um livro sobre os salmos. Os salmos são, talvez, o conjunto de poemas religiosos mais significativo e de maior influência jamais escrito. Resumem toda a teologia do Antigo Testamento. Há séculos, são a base da oração litúrgica judaica e cristã. Ainda hoje desempenham um papel mais importante do que qualquer outro conjunto de textos religiosos, na oração pública da Igreja.

Os monges beneditinos e cistercienses cantam o saltério todo cada semana. Aqueles cuja vocação na Igreja é orar, percebem que estão vivendo dos salmos — pois eles penetram em todos os setores de sua vida. Levantam-se os monges para cantar salmos no meio da noite. Durante a missa, tem nos lábios versículos dos salmos. Interrompem, durante o dia, seus trabalhos nos campos ou oficinas do Mosteiro, para cantar os salmos das Horas menores. Recitam salmos após as refeições, e as últimas palavras que pronunciam, no fim do dia, são versículos escritos há milhares de anos por algum Salmista.

Para o monge que penetra realmente no sentido pleno de sua vocação, os salmos são o alimento da vida interior, dando-lhe material para suas meditações e oração pessoal, de maneira que acaba por vivê-los, deles se compenetrando de tal modo como se fossem seu próprio canto e a sua própria oração. Ora, isso não seria possível se os salmos não passassem de simples literatura para aqueles que devem reza-los todos os dias. “Arte” e “literatura”, como tais, tem, sem dúvida alguma, um papel importante a desempenhar na vida monástica. Mas, quando alguém vive no profundo despojamento de um espirito desnudada, em face unicamente de realidades espirituais, ano após ano, arte e literatura podem acabar por parecer insignificantes e pouco substanciais — ou então se tornam um engodo e uma tentação. Em ambos os casos podem ser uma fonte de inquietação e descontentamento. Entretanto, numa vida votada inteiramente à serenidade e à paz interior, a oração litúrgica do monge é uma das grandes influências pacificadoras. Ha para isso uma só explicação: os salmos adquirem para os que neles sabem penetrar, uma profundeza espantosa e maravilhosa e inesgotável atualidade. São eles o pão milagrosamente preparado por Cristo, para nutrir aqueles que O seguiram no deserto.

Escolhi esse símbolo propositadamente. O milagre da multiplicação dos pães evoca, habitualmente, o Sacramento da Eucaristia que ele anunciava. Mas a realidade que nos alimenta nos salmos é a mesma de que nos nutrimos na Eucaristia, embora sob forma bem diferente. Num e noutro caso, somos nutridos pelo Verbo do Deus. No Santíssimo Sacramento, “Sua carne é realmente comida”. Nas Sagradas Escrituras o Verbo está encarnado em palavras humanas, não em carne. Mas o homem vive de toda palavra que procede da boca de Deus.

Este livro não é um tratado sistemático, é apenas uma coleção de notas pessoais sobre o saltério. Notas de um monge, escritas conforme a tradição monástica, e podemos supor que hão de interessar sobretudo a monges. Nos tempos misteriosos em que vivemos, no entanto, não podemos prever quais serão os leitores destas páginas — ainda que não se espere atingir toda gente. Talvez, por sua própria natureza, pudesse este livro pretender dirigir-se àqueles que não compreendem muito bem por que são obrigados, por vocação, a fazer dos salmos a substância de sua oração. Em todo caso, estas páginas tentam por em evidência algumas das razões pelas quais os salmos, apesar da sua antiguidade, devem ser considerados como uma das formas de oração que mais convém aos homens de todos os tempos. Aos leitores que só conseguem ver nos salmos simples “literatura”, esse livro oferecerá pelo menos alguns dos motivos que fazem do saltério mais do que literatura, para aqueles dentre nós que dele fizemos nosso Pão no deserto.

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